‘Jamais vou me omitir’, diz Dorival, chamado para 12 jogos no Fla e que vive crise com Diego Alves

4/11/2018 08:39

‘Jamais vou me omitir’, diz Dorival, chamado para 12 jogos no Fla e que vive crise com Diego Alves

‘Jamais vou me omitir’, diz Dorival, chamado para 12 jogos no Fla e que vive crise com Diego Alves
Aos 56 anos, Dorival Júnior ficou marcado por assumir grandes desafios em equipes que brigavam para não ser rebaixadas, como o próprio Flamengo, em 2012. E se orgulha de trabalhos que só deram retorno nas mãos de outro profissionais, como ocorreu no Santos, na Libertadores de 2011. Na ocasião, foi demitido após enquadrar Neymar. Hoje, às 17h, contra o São Paulo, no Morumbi, o treinador do Rubro-Negro espera continuar alimentando o sonho de título brasileiro. Para isso, deixou claro que a crise com o goleiro Diego Alves não pode atrapalhar.



O que te seduziu a assumir um desafio com 12 jogos pela frente, duas eliminações em competições de mata mata, ambiente politico conturbado por eleições e nenhuma garantia de permanência após três meses?

Eu tenho consciência do contrato que assinei. Acompanhando as equipes do Brasileiro, num todo, sempre me agradou a maneira como o Flamengo jogava. Achava o trabalho do Maurício Barbieri muito bom. Sentia que algumas dificuldades se deviam ao calendário, a sequência. Não esperava essa situação. Como era uma equipe que eu acreditava, olhei a tabela e vi que teria semanas importantes, achei que ajudaria de alguma forma. Para mim seria importante voltar ao Flamengo. Aguardava um dia acontecer. Não nesse momento ou situação. Foi um grande desafio. Em uma equipe que eu acreditava que estaria e como está, brigando até o final da competição pelos primeiros lugares.

O que falou com o Barbieri?

Liguei para ele porque um dia depois eu estava assinando contrato. É um profissional que eu acompanho há tempos, sempre tive boas referencias. Profissional com capacidade muito boa e com desenvolvimento de carreira pela frente. Me senti obrigado a fazer um agradecimento por tudo que ele deixou aqui dentro. Nos dando a possibilidade de tentar ajudar e valorizar o trabalho dele.

Ele disse que não foi convidado para ficar na comissão. Um trabalho como o dele é natural que busque novos desafios?

Ele tem que acreditar, sim. Pode vir a ser um dos grandes profissionais do país. Questão de tempo. Natural haver oscilações. Vivemos de resultados na carreira. Ele teve um início promissor e pode ocupar espaço importante.

Você disse que não esperava vir nesse momento agora. Como aconteceu a conversa?

Foi no dia seguinte (da demissão), na parte da manhã, recebi um primeiro contato. Me coloquei á disposição para conversar. Foi muito rápido. Não me importei com nada. Sabia do tempo de contrato. Fui favorável. Não tinha que pensar, discutir, foi uma situação respeitada, entendi dessa forma, já peguei clubes em momentos de transição, até o Flamengo.

A sua permanência não é garantida, né.

Essa ambição e essa preocupação inexistem. Eu tinha consciência que o trabalho seria para aquele período, ponto, acabou.

Mas você não quer ficar?

Quem não gostaria de trabalhar no Flamengo com o elenco que nós temos? Estamos muito próximo de grandes conquistas.

Isso está sendo tratado inteiramente (Diego Alves). Por isso evito qualquer comentário.
Dorival Junior

Qual a receita para ganhar títulos no Brasil?

Não existe. Completei quinze anos de carreira. Fiquei dois anos e meio parado, tenho onze campeonatos, cada um conquistado de uma maneira. Não é simples. Tem que existir forças que se aproximem e estejam somadas no mesmo momento. É o que lhe dá possibilidade maior. Estar no lugar certo no momento certo. O principal dos profissionais é desenvolver trabalho. E isso no Brasil não é avaliado. E é mais prazeroso ás vezes que uma conquista. Prazer mesmo eu sinto quando olho o ano de 2011 vendo a equipe que eu trabalhei 2008 e 2009 sendo campeã da Copa do Brasil. E a equipe eu eu trabalhei em 2010 sendo campeã da Libertadores, o Santos. Isso tem um grande valor. Mas não tem um reconhecimento. Isso é uma satisfação pessoal. Pra mim tem um valor grande. Pegar uma equipe desmontada, como em 2006 no Sport, deixamos um elenco montado e eles foram campeões de vários regionais, Copa do Brasil…Isso é prazeroso.

Como se avalia trabalho no Brasil?

Não dá. Quem vence é quem leva todo reconhecimento. Hoje, o grande treinador do Brasileiro, quem é? Não preciso falar bem do Felipão, do Mano, dos estabelecidos, que já tem a carreira encaminhadas. Os grandes treinadores do Brasileiro foram Odair Helman e o Lisca, que faz um brilhante trabalho no Ceará. Tem reconhecimento pela empatia com o torcedor, mas tem um grande trabalho. Uma equipe que joga, e poucos reconhecem isso. O principal é mudar esse contexto.

Em reunião na CBF você cobrou que os técnicos não montem times para não perder e deixar o campeonato de baixo novel técnico. Porque você acha que isso acontece?

A preocupação é com o futebol, não com o resultado. Você está satisfeito com o futebol brasileiro? Jogado? Poucos falariam algo positivo em relação ao que se vê no resto do mundo. Estamos satisfeitos com o futebol sul-americano? Essa foi minha colocação na CBF. Sempre fomos a maior referencia. Não vamos deixar de produzir grandes jogadores. Mas já perdemos e estamos distantes do posto de primeiro colocado. Estamos indo na contramão do vôlei. Que briga pelas primeiras colocações nos últimos anos. Se preparou mais para alcançar resultados.

É possível criar algo diferente no Brasil a não ser perseguir o resultado?

Tem que haver uma mudança no calendário. A CBF apresentou problemas na formatação de campeonatos, temos que entender. O futebol precisa ser mais conversado com todos os seguimentos. Está mudando e não estão percebendo. É o produto mais vendável no mundo e não sabemos tirar proveito. Não nos preparamos para formar profissionais. Para apresentar nosso produto e para vender. Erro grande em toda cadeia. A maneira que estamos levando o futebol leva os clubes a tomar medidas que comprometem tudo isso. Apenas três clubes não mudaram de treinador desde o início do ano. Sessenta profissionais já sentaram no banco de reserva de 17 equipes, 65 na Série B.

Mas o treinador pode fazer uma mea-culpa? Assumir um clube por ano apenas? Os que saem é porque entra outro…

É o que alimenta o mercado, que não é preparado para nada. Nenhuma formação era exigida do treinador, poucos fizeram o curso de Educação Física. Não há essa necessidade, sou formado e não há parâmetro nenhum, nada me auxiliaria na minha área, seria um complemento. Se não tem uma formação e uma legislação que crie algumas condições em que o clube se veja reservado nas posições, e também o treinador, pelo número de profissionais no mercado, deveriam entrar num escalonamento. Deveriam ser melhor trabalhado, mas não é assim. O futebol é entretenimento, não um produto. O clube não é tratado como empresa. Há exceções nos últimos anos. A cadeia toda está com problemas.

Da Copa de 2014 para essa o futebol brasileiro jogado aqui não melhorou?

Houve estruturação dos clubes, interesse maior dos profissionais. Mas qualitativamente não vejo alteração tão grande. Ainda produzimos grandes jogadores e vai ser assim sempre. Perdemos o posto de número um do mundo mas nos reinventamos, temos a essência. Precisamos acelerar esse processo de renovação.

Que mexidas pontuais você fez no Flamengo que considera a sua mão no trabalho?

Aproveitamos essas semanas para ajustes. A equipe já era bem treinada. Definida. Com jogadores importantes. Elenco muito bom. Nos dá possibilidade de alguns mexidas e assimila rapidamente os ajustes. Todos foram detalhes táticos. Alguns novos comportamentos de meio e ataque. Uma transição com velocidade maior. Movimentos de penetração. Tem que ter repetição do trabalho. E isso que estamos incrementando. Tivemos o tempo que faltou antes. E foi importante para ver a equipe jogando jogos seguros, buscando o gol, criando pelo individual e pelas movimentações. Buscamos uma nova possibilidade. Ainda é pouco, mas muitas coisa foram acolhidas. Acreditaram nisso e as coisas começaram a fluir. O campeonato é muito difícil. Espero manter essa postura.

O Vitinho mudou de função?

Função, sim. Alguns comportamentos eu mudei em relação ao que eu via. Importante para quem atuar ser dessa maneira. Mantive a forma de jogar. Alterei posicionamentos defensivos. Algumas movimentações de algumas funções. Para no momento de retomar a bola os jogadores estarem mais próximos. Ficamos com volume maior de jogo e possibilidade de criar mais. Observava o Flamengo com muita posse de bola, fruto de um legado, tentamos aproveitar isso mas acima de tudo buscando infiltrações, triangulações, que o atleta atacasse mais espaços vazios. O Vitinho não precisava chamar para si toda a responsabilidade ofensiva.

Qual a posição do Paquetá e a melhor forma de usá-lo, onde ele joga hoje?

É a posição que todos nós queremos encontrar no futebol brasileiro. Pode ser um meia, um atacante, segundo volante. Ele tem todos esse quesitos que o fazem um jogador muito promissor. Que lhe dá chance de ocupar um espaço no futebol mundial. É um jogador completo em todos os sentidos. Tem que estar sempre estimulado, instigado. Mas é difícil encontrar um meia como ele. Com a capacidade que ele tem e o potencial ainda a ser desenvolvido.

O futebol do Flamengo sempre passou pelo Diego. Quando ele não está como dar o ritmo ao time?

Com essa aproximação e compactação. Presença maior dos laterais, se tornando jogadores de meio e centro. Movimentação dos atacantes maior, liberdade para os atletas de lado de campo, com bolas em projeção. O Diego tem capacidade muito grande de criação e de definição. Gostaria, e tive uma conversa com ele hoje, de vê-lo atuando mais com preocupação ofensiva. Ele tem essa característica e precisa aproveitar mais, sempre trabalhou dessa forma na carreira. Como o Hernanes que se aproximou da área e foi fundamental no São Paulo. Diego tem potencial único, faz bem para qualquer equipe. Gostaria que ele canalizasse mais essas condições para o momento de definição, na frente da área, para dentro, ele é um jogador diferenciado no país.

Ele sempre foi cumpridor tático e fez bem por um tempo a função de segundo homem. Voltaria com ele nessa função?

Ele faz bem esse tipo de função. O que pedir ele faz. Pela capacidade e características queria vê-lo ali dentro, é o jogador perfeito nesse tipo de situação.

Você tem testado ele em outras funções, aberto…

Tenho testado em outras posições para ele perceber como é importante para o time. Ele pode iniciar a qualquer momento porque é titular da equipe. Ocasionalmente está fora. Ele guardando forças para ser determinante no momento final do campo pode ser muito útil.

O Flamengo teve laterais ofensivos sempre, e esse ano houve muitas críticas aos da posição. Trauco, com essa característica, entrou e saiu quando você chegou. Por quê?

Achei que contra o Corinthians o Renê pela marcação seria importante, ele fez uma partida fantástica, o Trauco teve a ida para a seleção. Mas coloquei para ele que tenha paciência, que tem tecnicamente um potencial muito bom, e não pode ser desprezado. Tem condições totais. Me agrada muito. É uma função que eu gosto que os laterais atuem. Não vamos deixar de ter triangulações na lateral do campo com participação desses alas.

A diretoria já está planejando 2019. Você tem participado das reuniões?

Com tranquilidade. Quando sinto que posso ajudar em alguma opinião, para que o Futebol se sinta fortalecido nas decisões, preparando um momento seguinte, é importante estar presente, mas se contendo em relação a questões e se limitando a situações, esse é o meu papel nesse instante, em razão desses fatos que conversamos.

Quando Ze Ricardo e Barbieri comandaram o Flamengo, havia a impressão que não seriam capazes de lidar com jogadores tarimbados, em momentos de pressão. Existe essa diferença quando um treinador experiente assume o comando?

Temos que ter cuidado com isso e não deixar de reconhecer o valor dos treinadores que estão no mercado. Nós brasileiros fazemos de forma gratuita, taxamos o profissional. E com os que estão chegando tem que ter um carinho diferente. Reconhecimento e respeito com todos. As pessoas que fizeram muito pelo futebol e são questionadas tem que ser mais ouvidas, não podemos descartar. E os que estão chegando estão vindo bem preparados, é questão de vivenciar essas oscilações para amadurecer.

Quando é necessário impor a hierarquia em um vestiário?

A todo momento. Eu jamais vou me omitir de uma situação que eu sinta que eu esteja com a razão, e que o clube esteja sendo prejudicado. O clube tem que ser preservado e respeitado. Jamais vou deixar de seguir o que minha consciência me manda fazer, o que eu penso nunca fiz isso. Talvez eu tenha sido um dos que mais deu oportunidade a jovens talentos, sei conviver com mais novos, mais rodados. Problemas o treinador brasileiro tem todos os dias, são trinta elementos e escalamos onze apenas. Natural que nós vivenciamos problemas praticamente em todas as circunstâncias. Na verdade o treinador brasileiro é um gerenciador de problemas, nada mais do que isso. É a definição para o treinador brasileiro. O treinador participa de todo o contexto no clube. Poucos clubes estão organizados como o Flamengo. Treinador ainda tem uma participação além do que se faz apenas no campo. Tem que participar ativamente de todo o entorno do futebol da sua equipe, do movimento do dia a dia da equipe.



Nenhum dos técnicos que passaram aqui desde o Oswaldo de Oliveira em 2015 tiveram problemas disciplinares. Como se manter a disciplina em um grupo de jogadores renomados?

Tratando todos com igualdade. Com lealdade. Natural encontrar as situações no dia a dia. São pontuais, que acontecem. Quebra um pouco a rotina. A intervenção tem que ser imediata e tem que tentar neutralizar o problema que está afetando o grupo de trabalho. O problema não pode se agravar, tem que tentar resolver o mais rápido possível.

Te surpreendeu o comportamento do Diego Alves?

Não falo nada. Isso está sendo tratado inteiramente e as partes serão respeitadas. Por isso evito qualquer comentário.

O Cesar está há um tempo no Flamengo, teve chances e voltou para o banco várias vezes. Acha que ele merece ficar como titular?

Conheci ele garoto, acompanhei sua carreira. O principal quando eu cheguei aqui, o que eu vi nas partidas iniciais me fizeram acreditar que esse menino vive um grande momento, e eu não tinha o direito de cortar esse grande momento. Fiz o que minha consciência me mandava. Dentro das observações e do comportamento que ele vinha tendo, não achei correto tomar uma posição mesmo entendendo que o profissional que acabe saindo não tenha saído por alguma questão técnica, mas eu tinha que tentar aproveitar esse momento que o Cesar vivia.

Ele é o goleiro ate o fim do campeonato?

Depende da resposta que ele continue dando. Está nas mãos dele. Quem confirma a condição é o próprio profissional.

Diego Alves alega que não deixou o time por questão técnica. E que você disse que ele poderia ficar no Rio com a família e não viajar contra o Paraná. Pode esclarecer?

Sobre isso não falo nada, desculpe. Uma ou outra parte da pergunta você tem razão, uma ou outra não tem nada a ver com a situação.

Se eu te perguntar se você conta com o Diego Alves até o fim do ano você também não vai responder?

Não.

Não conta?

Não. (Após a resposta o técnico esclareceu que a segunda negativa na verdade reforçava a primeira)

E MAIS: Flamengo tem nove pendurados para jogo deste domingo; Veja provável escalação

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1415 visitas - Fonte: Extra.globo


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